
São João Paulo II e Bento XVI denunciaram os erros da ditadura do relativismo.
O papa polonês nos legou a Encíclica Veritatis Splendor (VS), e o papa alemão falou contra o relativismo já na sua primeira homilia como pontífice, em 2005.
Mas o que é esse tal relativismo? Basicamente, a VS esclarece que é:
- negar a existência de um conteúdo moral específico e determinado, universalmente válido e permanente;
- a ideia de que a consciência de cada um não é uma fonte autônoma e exclusiva para decidir o que é bom e o que é mau, o que é verdade ou falsidade;
- afirmar que o que é bom ou mau pode variar conforme a cultura, e isso vale para toda e qualquer questão moral;
- dizer que nenhuma doutrina moral é definitiva, e que toda lei moral da Igreja pode mudar conforme o tempo e os costumes.
Graças a esse esclarecimento, vemos muitos católicos empenhados em não deixar a verdade católica ser deturpada pelos erros da ditadura do relativismo.
Porém, muitos desses bons católicos nem sempre estudaram o suficiente para entender o que é o relativismo denunciado pelos papas. Entendem a ideia de modo superficial, e acabam fazendo confusão, além de julgar os irmãos de modo temerário - o que é pecado!
Essas pessoas mal instruídas, quando veem alguém ponderar que algo não é necessariamente bom ou ruim, mas que aquilo é algo relativo (depende das circunstâncias, das intenções etc.), logo acham que estão diante de um.... herege relativista!!!...

Calma! Não é assim!
A VS explica que há atos que são intrinsecamente maus, ou seja, atos que são sempre maus, sem exceção. Isso independe do tempo histórico, da cultura, das circunstâncias. São leis morais universais e imutáveis (válidas para todos os tempos e lugares).
Quais são os atos intrinsecamente maus? Os atos que são sempre maus, em toda e qualquer circunstância. A VS cita, entre outros: todas as espécies de homicídio, genocídio, aborto, eutanásia e suicídio voluntário; tudo quanto ofende a dignidade da pessoa humana, como as condições de vida infra-humanas, as prisões arbitrárias, a escravidão, a prostituição, as condições degradantes de trabalho etc.
Porém, na lei de Deus, há atos proibidos que NÃO são essencialmente maus. Eles podem até mesmo ser neutros ou bons, de acordo com algumas situações de exceção.
Por exemplo: a nudez. De modo geral, é falta de pudor. Mas, diante do cônjuge ou diante da necessidade de um exame médico, é conforme a moral. Ou seja... É relativo às circunstâncias!
E há ainda questões que nunca foram tratadas pelo Magistério, e que costumam dividir opiniões (tatuagem, rock, festas e shows mundanos, Halloween, Harry Potter etc.). Muitos católicos esperam que, para tudo na vida, haja um julgamento duro e definitivo da Igreja, dizendo que aquilo PODE ou NÃO PODE. Mas não é assim!
Analisar essas questões e julgá-las conforme o contexto não tem nada a ver com a heresia da ditadura do relativismo. É entender que algumas coisas são absolutas, e outras precisam ser avaliadas caso a caso.
EXEMPLO DA SANTIFICAÇÃO DO DOMINGO
O mandamento de Guardar os Domingos e dias Santos ordena o DESCANSO:
2184. Tal como Deus «repousou no sétimo dia, depois de todo o trabalho que realizara» (Gn 2, 2), assim a vida humana é ritmada pelo trabalho e pelo repouso. A instituição do Dia do Senhor contribui para que todos gozem do tempo de descanso e lazer suficiente, que lhes permita cultivar a vida familiar, cultural, social e religiosa.
Aos domingos e outros dias festivos de preceito, os fiéis abstenham-se de trabalhos e negócios que impeçam o culto devido a Deus, a alegria própria do Dia do Senhor, a prática das obras de misericórdia ou o devido repouso do espírito e do corpo. (Catecismo da Igreja Católica)
Os fariseus, nos tempos de Jesus, entendiam o dever do descanso no sábado (que era antes o dia santo) de forma petrificada, rigorista. Eles ensinavam que ninguém poderia fazer nenhum trabalho, de jeito nenhum ainda que houvesse grande necessidade. Por isso, queriam acusar Jesus, por Ele ter curado doentes no sábado, e também porque viram seus discípulos colendo espigas no sábado.
Mas Jesus explicou que, em caso de necessidade justa, a pessoa poderia, sem ofender a Deus, deixar o santo descanso de lado, e cumprir a tarefa que se fazia urgente:
E aconteceu que, passando ele num sábado pelas searas, os seus discípulos, caminhando, começaram a colher espigas.
E os fariseus lhe disseram: Vês? Por que fazem no sábado o que não é lícito?
Mas ele disse-lhes: Nunca lestes o que fez Davi, quando estava em necessidade e teve fome, ele e os que com ele estavam?
Como entrou na casa de Deus, no tempo de Abiatar, sumo sacerdote, e comeu os pães da proposição, dos quais não era lícito comer senão aos sacerdotes, dando também aos que com ele estavam?
E disse-lhes: O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado. (Marcos 2,23-27)
Jesus recorreu às Escrituras para mostrar outro exemplo de uma proibição religiosa que não era absoluta: um homem que não é sacerdote não poderia comer os pães sagrados da proposição. Porém, diante da situação extrema da fome, o Rei Davi comeu aqueles pães, sem pecar.
Então, como PRINCÍPIO GERAL, não se deve trabalhar no domingo. Porém, na aplicação concreta dessa lei, em muitos casos particulares, é possível trabalhar, sem cometer pecado. Isso vai depender muito das circunstâncias, ou seja, é algo RELATIVO.
Os serviços de segurança pública e de saúde, por exemplo, não podem parar aos domingos. Por isso, o Catecismo pondera:
2185. As necessidades familiares ou uma grande utilidade social constituem justificações legítimas em relação ao preceito do descanso dominical. Mas os fiéis estarão atentos a que legítimas desculpas não introduzam hábitos prejudiciais à religião, à vida de família e à saúde.
O EXEMPLO DAS CARNES SACRIFICADAS AOS ÍDOLOS
O Novo Testamento apresenta outro caso de norma religiosa que não deve ser entendida de modo radical, mas sim relativo: comer carnes que foram, antes, sacrificadas aos ídolos pagãos.
Em 1 Coríntios 8 e em Romanos 14:14, São Paulo explica que os ídolos não são nada, então, em princípio, não havia nada de mais em comer as carnes sacrificadas nos templos pagãos. Não fazia mal nenhum.
Porém, os irmãos menos instruídos podem achar que o fato de comer essas carnes os coloca em algum tipo de situação de idolatria. Então, para evitar escandalizar essas pessoas, era melhor não comer as tais carnes.
Note que comer as tais carnes sacrificadas aos ídolos era um ato neutro (não tinha problema), mas poderia se tornar ruim de acordo com a situação. Ou seja, era algo relativo:
Se, portanto, algum descrente vos convidar para uma refeição e quiserdes ir, comei de tudo que vos for servido, sem nada questionar por motivo de consciência. Mas, se alguém vos prevenir: “Isto foi oferecido em sacrifício”, nesse caso, não comais, por causa daquele que vos avisou e por motivo de consciência. (1 Coríntios 10,27-28)
A sadia fé católica, portanto, é pautada na defesa radical dos valores eternos e inegociáveis. Assim como no equilíbrio em relação às demais questões, que podem ser entendidas e aplicadas de modo mais ou menos flexível, a depender da situação.
Também há muitas pessoas que tomam a OPINIÃO comunidades católicas e de padres como se fosse doutrina da Igreja. Se elas tomassem essas opiniões como guia de vida individual, tudo certo. O problema é que muitas delas começam a acusar os irmãos que não aderem essas opiniões de estarem pecando ou se aliando aos demônios.
Um dos exemplos mais emblemáticos é o tema da participação de católicos em celebrações de Halloween. A Igreja Católica jamais emitiu nenhuma – NENHUMA! – condenação a essa festa, mas muitos fiéis insistem em pregar que “católico não participa de Halloween”.
Muitos dos exorcistas mais famosos condenam completamente o Hallowen; mas muitos outros, como o Pe. Vincent Lampert (EUA) e o Pe. Antonio Fortea, dizem que é uma questão relativa. Dependendo da forma como for comemorado (sem fantasias demoníacas ou muito mórbidas), pode ser inocente e inofensivo.
O fato é que essa é uma questão controversa, sobre a qual o Magistério nunca se pronunciou. Provavelmente porque não é algo tão relevante, como muitos pensam. Sobre a polêmica e divisão dos cristãos em torno de temas controversos, São Paulo disse:
Aceitai o que é fraco na fé, sem a preocupação de debater assuntos controvertidos.
Um crê que pode comer de tudo, e outro, cuja fé é fraca, come somente alimentos vegetais.
Aquele que come de tudo não deve menosprezar o que não come, e quem não come de tudo não deve condenar quem come; pois Deus o aceitou.
Quem és tu, que julgas o servo alheio? É para o seu senhor que ele está em pé ou cai. E permanecerá em pé, porquanto o Senhor é capaz de o sustentar.
Há quem considere um dia mais sagrado do que outro; outra pessoa pode entender que todos os dias são iguais. Cada um deve estar absolutamente convicto em sua própria mente. (...)
Mas, tu, por que julgas teu irmão? Ou tu, igualmente, por que desprezas teu irmão? Pois todos compareceremos diante do tribunal de Deus. (Romanos 14,1-10)
Portanto, pense dez vezes antes de acusar um irmão de herege relativista, quando ele está relativizando um assunto não abordado pela Igreja e que, por si mesmo, é relativo. Não vale a pena importunar os irmãos e aumentar a nossa pena temporal por tão pouco.
fonte:
https://ocatequista.com.br/catequese-sem-sono/catequese/item/18428-relativistas
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